Voo, violão, vidro

1.

Voando na escuridão. A neve são pontos brancos espalhados no preto, movendo-se coordenados. As linhas em diagonal dão a velocidade do deslocamento. De repente no chão. É uma floresta. Silhuetas indicam as figuras de uma tribo. Tem traços grossos de desenho. Olhos destacados da face. Azuis, em contraponto a todos os tons escuros.

2.

Chove. Um homem caminha no mato alto. O relampejo denuncia os seus perseguidores: um grupo de homens-palito, enfileirados como em recortes de papel feitos por uma criança na escola. O homem os derrota um a um. Tem uma violão. Usa-o como porrete. Tira uma corda. Usa-a para enfocar um dos inimigos: “É difícil saber quando sufocam, pois o seu pescoço é só um risco grosso”. Morto o adversário, ele enfia as mãos em seu peito para devorá-lo. É pura tinta, mas ele já está aqui há tempo o suficiente para ter se acostumado a comer apenas tinta.

3.

Uma mulher nua no pote de vidro em que guardamos o que sobra da comida. Ela se deita entre as batatas-fritas. Com um tanto de uma delas. Eu tampo o pote e a coloco na geladeira. Lá supõem-se muitas outras como ela. Na maionese. No feijão e arroz.

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Relaxing and Calm White Noise, de Arx.

Deuses, mecanismos

1.

No oceano original um dos deuses dorme. Todo seu corpo está imerso no líquido translúcido, feito como que de pinceladas de luz e transparência, azul e amarelo baços. Seu rosto é também contornos e semivisível, seus cabelos surgem dourados e fenecem, seus olhos não tem pupila. Todo o seu corpo está sob a água, e quando ele deixa a cabeça mergulhar, desaparece completamente.

2.

Deus está tentando fazer um céu acima da terra, mas é complicado preservar todo um firmamento. Ele lança grandes bolhas de tinta para cima, elas se chocam e marcam o nada preto com uma mancha: céu rubro de formas espatifadas e inconstantes. Deus faz os robôs encherem todo um lago de tinta só para elevar de uma vez a grande quantia ao ar e criar uma marca ainda maior. Por todo o jardim do Éden escorre a tinta, filetes quase imperceptíveis chovem por toda extensão.

3.

O mecânico opera o robô (eu). Abre o seu rosto (sinto abrir o meu rosto) e destaca os seus olhos (vejo depositar um olho e outro no móvel ao lado da cama de ferro – como vejo?). Abre a boca de metal e extrai dentes humanos, um pouco de sangue escorre – é a ação de Deus, ele sabe. Deus que não pode aceitar que os humanos roubassem o seu posto de demiurgo e se fizessem valer no campo variado da criação da vida. Como retaliação, Deus faz a carne surgir no metal, danificando os robôs e complicando toda uma legislação que garante quem é e quem não é superior (sinto extrair meus dentes).

4.

Tudo na casa, os móveis e até o dono são dependentes do sinal de telecomunicação. Podem ter mais ou menos definição, mais ou menos realidade, solidez, transparência ou inexistência de acordo com o transmitido. Às vezes o dono evanesce e se une ao ruído.

5.

O costume nos aniversários é esmagar com um martelo um relógio. A aniversariante vê animada o pai quebrar o vidro, os ponteiros, os mecanismos se espatifarem. No mesmo ritual, recebe um novo relógio, com carga ao ano que se passará. Ele será disposto na parede um pouco abaixo das hélices do relógio lâmina, que gira por toda uma vida.

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum White Noise Compilation, v.1: Sound Therapy.

Combate, luz

1.

Os holofotes varrem o céu na proximidade do complexo militar. A noite é clara e tem poucas nuvens. Uma criatura de desenho animado (um ursinho azul, braços e pernas arredondados, sem dedos) invade o local. Os guardas são também cartoons, parecem colagens de formas geométricas e andam em duas dimensões. O ursinho ataca: lança seu braço a frente e ele se estende em um tentáculo sangrento e hiperrealista, que ao tocar o inimigo também o torna mais real: é com cabeça humana que o soldado tem o crânio despedaçado e a face rasgada em pedaços. O ursinho avança. Faz da sua mão um porrete de pedra enorme e atira longe outro militar, que se espatifa numa parede, terrivelmente humano. O ursinho avança.

2.

No interior da baleia, Jonas procura comida. Tem o poder da luz: com um esforço, faz a sua mão agir como lanterna (na palma ela arde vermelha, os dedos amarelecidos, o jorro como de holofote na carne ressequida e nos grandes ossos do animal). A sua boca também exala luz, assim como o seu nariz. Ás vezes, todo o seu corpo, ocasião em que Jonas faz a baleia ser totalmente visível.

Um dia, ele sente algo diverso nela. Grande abalo, som triste, ferimento de morte? Ele imagina como será assistir à morte de algo no interior dele. Senti-la morrer por dentro.

3.

Chovem flores, milhares, por toda a cidade. Acumulam-se na rua ao montes: corolas e botões e pétalas amarfanhadas. Os robôs – desde os corujinhas, que voam, enchem os seus pequenos compartimentos, e voltam, até os imensos – recolhem e processam as pilhas de flores. Chega certo horário e vêm as naves de limpeza, muito potentes, com um grande tubo de sucção na sua parte inferior. Elas aspiram, e turbilhões de flores emergem aos céus, como furações de ponta-cabeça. Em um quarto, escondida, uma mulher assiste à sua pele converter-se em pétalas de rosa. De repente – uma delas se destaca do braço. Ela se imagina desfazer-se toda em flor. Um homem vela por ela. O temor dos lixeiros os une.

4.

Ele voa sobre o oceano, muito veloz, fazendo a água espumar e saltar, nas suas costas as asas translúcidas, pouco definidas, feitas de ruído comunicacional, mudam de forma com intenso ritmo. São todas as asas pensadas pelos homens que se sucedem ali: ele voa sustentado pela história da imaginação do voo. É um vigia, um guardião, um acadêmico. Checa conforme voa os universos de cada conceito – amor, amizade, tristeza – terras de cor pura compostas pela subjetividade. E ele também visita a pororoca, o encontro na imensidão preta entre as nebulosa lilazes e infinitas de deus e o nada. Entre deus e nada, na brecha em que eles quase se tocam, mas são separados por algo, uma tensão, ele só observa. Vemos a câmera se afastar mais e mais, ele cada vez mais pontual no centro da imagem, para dar conta de deus e do nada. A câmera se afasta e se afasta. O menino que imagina essa cena começa a inchar: a figura do ser e do não-ser o preenche mais e mais. Como um balão de hélio incham seus dedos, suas pernas, seu rosto. Logo é algo bojudo que exala ondas de perturbação no quarto. Logo sua pele esticada toca as paredes, os cabelos espalhados em uma superfície esticada roçam o armário. De sua boca, sai luz, de seus olhos sai luz, de seu nariz, sai luz. E então um pequeno furo começa a esvaziá-lo. O ar em que algo granuloso e lilás está suspenso. Ele esvazia, ele esvazia, e assim deus e o nada retornam ao mundo.

5.

A carne é inconstante nele. Desaparece, cede, cai aos pedaços. Com frequência é só esqueleto, e como esqueleto ele tem grande agilidade: escala qualquer prédio e corre em alta velocidade. Os seus componentes são ligados por alguma energia: pode lancá-los no espaço, o punho adiante do antebraço muitos metros, o braço adiante do tronco muitos metros, para depois trazê-los de volta como elásticos. No mundo lá fora os lobos de pele o acossam. A epiderme se destaca dos seus rostos e ataca como tentáculos. A língua emerge grossa e capaz de perfurar o concreto. Os dentes se acumulam na lateral da face, soltos na massa de carne. No chão da cidade há a mãe de todos eles, que solta seus braços de polvo e tritura por dentro quatro prédios. O homem precisa reagir. Explode então em milhares de fragmentos, pó de osso que se espalha com violência e fere cada poro dos lobos de pele. O sangue vaza no ar milimétrico. O pó agora como um anel ao largo de todos eles volta e os choca num só bolo de carne que cai na boca da mãe. O pó agora girando lento e afilando em uma seta que desce lenta e ferina e penetra no cérebro da mãe, que morre vomitando gosma. Na gosma e no ar brilham frações brancas. Elas se acumulam em um ponto e brilham, brilham, recompondo o homem – inclusive sua carne, em um foco luminoso. Nu, branco, novo, no intenso da luz.

6.

No centro da face, o genital feminino. Entre as pernas, a boca. O dono ou dona da boca se coloca com as pernas abertas sobre o rosto-vagina e chupa e lambe. Há, também, unicórnios: o falo surgindo ereto da testa.

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Limbo – Original Videogame Soundtrack, de Martin Stig Andersen.

Baseball, tubarões inflados e bruxa

BASEBALL. O homem que lança se demora por meses esculpindo uma face a partir da pedra. Se erra o desígnio, pede a seus companheiros de time que tragam mais material. Quando atinge a expressão que deseja, a ergue e a atira com o poder da sua intenção. O rebatedor deve entender a expressão, desvendar seu motivo, especular sobre a sua história. Sua capacidade de decifração dará a possibilidade do seu taco quebrar seu ímpeto e sua matéria, ou pelo contrário, se despedaçar sem contê-la.

TUBARÕES INFLADOS são lançados pelo exército inimigo. “Tubarões! Tubarões!”, os gritos na aldeia são inúmeros e se somam ao som do gás hélio escapando do plástico conforme os tubarões ascendem voo ao longe e descendem sobre as suas vítimas, mastigando carne e quebrando osso, apenas para perder todo conteúdo e morrer como brinquedos de criança nas calçadas cheias de sangue.

BRUXA. A caveira da bruxa (só sobram sobre o osso o chapéu, roupas amarfanhadas, restos de pele seca e cabelos brancos) sente um sinal e desperta. Um a um, dos dois vazios do crânio, saem diversos globos oculares. Logo, centenas deles deixam a casa e avançam pelas colinas até a aldeia. Logo, milhares invadem uma casa. O pai percebe e diz à filha: “Corra!”. Ela foge. Ele, com uma foice, tenta golpear e afastar os olhos. Mas eles sobem pelas suas pernas e braços aos montes, o derrubam, enfiam-se nos buracos do seu nariz (se empastelando no processo) e pela sua garganta. Ela sufoca, avermelha, morre. Não longe dali, a garota está cercada. Os olhos deixam só um caminho aberto. Ela sabe o que tem de fazer. Eles a escoltam até a casa da bruxa. Lá, eles fazem com que ela tome na mão uma espátula. Ela sabe o que tem de fazer. Enfia a ferramenta de metal na borda do olho e, parando várias vezes, arfando, tremendo, gritando, consegue arrancar o primeiro. O coloca no crânio. Ele se move de imediato, integrado, perspicaz. A moça passa a arrancar o próximo. Quando o faz, os milhares de globos o carregam até o segundo espaço no crânio. Assim que ambos estão lá, os cabelos se vivificam e mesmo a pele seca ganha vida. Os olhos passam a se pressionar contra os ossos, esmagando-se, tornando-se uma pasta sem cor, pouco a pouco se metamorfoseando em órgãos, em músculos, em epiderme. A bruxa, nua e renovada se deixa ficar deitada apenas um pouco. Levantada, ordena à menina cega que limpe o local. É o que ela faz, junto às suas companheiras de fado, que já se encaminhavam ao local — elas também sentiram o sinal. Anos mais tarde, será tempo da bruxa novamente ir a uma aldeia, seduzir um fazendeiro, fazer com lhe engravide somente para abandonar-lhe com a criança, dizendo que quando ela chegar aos 21 anos, ela voltará. (Uma vez, tentaram contê-la. O pai, com o bebê nos braços, fez um alarme e entraram outros três homens, antigos maridos da bruxa. Ela riu? “O que pensam que podem fazer?” Mergulhou um dedo em um panela de óleo quente e o atirou no primeiro. Sua carne ferveu inteira de pronto. No segundo, enfiou as unhas do indicador e do dedo médio no pomo-de-Adão; com um peteleco para cima, a cabeça se descolou do corpo. O terceiro, ela lhe enfiou dois dedos que mergulharam na sua testa como se fora líquida, e ele inchou, as veias explodindo. O pai ameaçou assassinar a criança ali mesmo, retirando qualquer vantagem dela. Era a segunda vez que isso acontecia à bruxa. Da primeira, o pai jogou a criança ao fogo, e nada pode fazer. Apodreceu por mais tempo do que seria seguro. Dessa vez, ele cortou a pequena garganta. O metal não possuía poderes sobre ela, e a bruxa só teve de regenerar o bebê. Deu um beijo no pai, o perdoou. Aterrorizado, ele se conformou.)

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Konoyo, de Tim Hecker (de “This Life” a “In Mother Earth Phase”).

Primavera, verão, outono, inverno

PRIMAVERA. Quantidades enorme de fruta são espremidas. Corre o suco pelas canaletas dos templos de arquitetura similar à asteca. Derramam-se baldes de suco sobre a cabeça dos “sacrificados” ao deus. Com estiletes, pequenos cortes são feitos nesses que são purificados: seu sangue corre mínimo frente à grandeza da natureza. É principalmente o trabalho coletivo que é entregue à deidade: milhares de pés pisam uvas por centenas de hectares. A visão aérea é magnífica. Nas academias, os sábios começam a se despedaçar. Voam em um espaço sem gravidade seus olhos, suas orelhas seu nariz, sua boca, seus dentes, sua pele desenrolada como papiros. Eles sorriem. Voltarão a ser íntegros noutras estações.

VERÃO. É preciso se incapacitar à violência. Toda agressão e toda morte, e de forma cada vez mais intensa de acordo com a brutalidade, carrega a arma e o ofensor com uma energia negativa, que lhe acompanhará por toda vida. Não poderá erguer uma arma que seja ou mesmo a mão para outro ser por toda sua vida. Pela paz perpétua, portanto, na maioridade todos os homens e mulheres são formados em exército e levado ao ataque de um reino vizinho, que sofre um massacre. Os sobreviventes retornam abençoados, incapazes de machucar os seus. Ainda está tudo terminado, porém. Na segunda metade da estação, é a vez do reino vizinho atacar, deixando pouco mais que nada após sua passagem. Em ambos os lados, aqueles que sobram comemoram amplamente, com carne morta e vegetais apanhados pelos mais jovens.

OUTONO. Chove. Cilindros de luz multicoloridos caem a espaços do céu: amarelo, azul, roxo, verde, branco. As luzes atraem as criaturas que vivem nas nebulosas nuvens cinzentas. Os grandes dragões-arraia-azul se desprendem de como que grossas volutas de fumaça e perseguem as cores, sem poder capturá-las. Outros peixes do céu, como a piranha-de-boca-fixa, conseguem arrancar pedaços da luz (no caso delas, a luz permanece dentro da mandíbula, presa, ardente). Montados em libélulas de combate, os caçadores se movem em imenso exército para manter sob controle a movimentação dessa fauna rebelde. O principal cuidado é não olhar para uma piranha-de-boca-fixa após ela ter engolido um bocado de luz: como o canto das sereias, esse brilho mastigado atrai o combatente sem escape. Como se sabe que é o caso, assim que um soldado entra na garganta do peixe um dispositivo faz com que ele exploda, levando consigo o animal. O que faria uma piranha-de-boca-fixa alimentada? A luz recém-libertada retorna ao cilindro de luz, que lá permanecera, sem poder chegar e partir como os outros; os fragmentos quebrados que flutuavam na parte rompida pela mordida são mobilizados pelo raio que vai do peixe explodido até o cilindro; se reconstrói a estrutura e desaparece. O que ocorreria se os cilindros não pudessem retornar ao céu? Os soldados certamente teriam o que temer se tudo isso dependesse apenas deles. Mas o Mastiga-Folha vem, como em todo outono, trazendo à mão os burros que movem a sua carroça carregada de uma tonelada de folhas secas, as quais ele sempre tem de estar mastigando, se quiser permanecer de pé. Ele sabe como enfrentar as criaturas; com poucos gestos, as devolverá ao seu habitat. No outono ademais, ocorre o Festival do Tecido Sobre o Lago. Se as folhas caem, devemos ser tão leves quanto elas. Roupas de festa são lançadas para boiar, cobrindo o lago de cor. Uma única virgem nada de costas, nua, lenta, arrastando consigo as roupas conforme passa. Seu corpo delicado é iluminado pelo luar.

INVERNO. A imperatriz observa do palácio de cristal. Dentro dela, os orbes de luz que são seus sentimentos por vezes brilham e se movem, visivelmente. Passarozinhos de vidro infestam o local. Usados para construir tudo. Varridos nas ruas, mortos pelo excesso. Os robôs de segurança pisam nos montes de cadáveres. Os músicos os convocam e coordenam por meio de piano e violino. A Imperatriz, porém, consegue controlá-los por sua vontade. Ao longe, o monstro lilás se liberta de sua prisão. Reproduz-se: dois gêmeos explodem de suas costas. Morre na sequência. Os recém-nascidos o devoram e procedem a se multiplicar. Um exército vai se criando: eles atacarão o povo diáfano. Chove: manuscritos caem no céu e incineram logo após se destacaram das nuvens. Chove: como centenas de meteoritos pequeninos.

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Konoyo, de Tim Hecker (de “This Life” a “In Mother Earth Phase”).