1.
Os holofotes varrem o céu na proximidade do complexo militar. A noite é clara e tem poucas nuvens. Uma criatura de desenho animado (um ursinho azul, braços e pernas arredondados, sem dedos) invade o local. Os guardas são também cartoons, parecem colagens de formas geométricas e andam em duas dimensões. O ursinho ataca: lança seu braço a frente e ele se estende em um tentáculo sangrento e hiperrealista, que ao tocar o inimigo também o torna mais real: é com cabeça humana que o soldado tem o crânio despedaçado e a face rasgada em pedaços. O ursinho avança. Faz da sua mão um porrete de pedra enorme e atira longe outro militar, que se espatifa numa parede, terrivelmente humano. O ursinho avança.
2.
No interior da baleia, Jonas procura comida. Tem o poder da luz: com um esforço, faz a sua mão agir como lanterna (na palma ela arde vermelha, os dedos amarelecidos, o jorro como de holofote na carne ressequida e nos grandes ossos do animal). A sua boca também exala luz, assim como o seu nariz. Ás vezes, todo o seu corpo, ocasião em que Jonas faz a baleia ser totalmente visível.
Um dia, ele sente algo diverso nela. Grande abalo, som triste, ferimento de morte? Ele imagina como será assistir à morte de algo no interior dele. Senti-la morrer por dentro.
3.
Chovem flores, milhares, por toda a cidade. Acumulam-se na rua ao montes: corolas e botões e pétalas amarfanhadas. Os robôs – desde os corujinhas, que voam, enchem os seus pequenos compartimentos, e voltam, até os imensos – recolhem e processam as pilhas de flores. Chega certo horário e vêm as naves de limpeza, muito potentes, com um grande tubo de sucção na sua parte inferior. Elas aspiram, e turbilhões de flores emergem aos céus, como furações de ponta-cabeça. Em um quarto, escondida, uma mulher assiste à sua pele converter-se em pétalas de rosa. De repente – uma delas se destaca do braço. Ela se imagina desfazer-se toda em flor. Um homem vela por ela. O temor dos lixeiros os une.
4.
Ele voa sobre o oceano, muito veloz, fazendo a água espumar e saltar, nas suas costas as asas translúcidas, pouco definidas, feitas de ruído comunicacional, mudam de forma com intenso ritmo. São todas as asas pensadas pelos homens que se sucedem ali: ele voa sustentado pela história da imaginação do voo. É um vigia, um guardião, um acadêmico. Checa conforme voa os universos de cada conceito – amor, amizade, tristeza – terras de cor pura compostas pela subjetividade. E ele também visita a pororoca, o encontro na imensidão preta entre as nebulosa lilazes e infinitas de deus e o nada. Entre deus e nada, na brecha em que eles quase se tocam, mas são separados por algo, uma tensão, ele só observa. Vemos a câmera se afastar mais e mais, ele cada vez mais pontual no centro da imagem, para dar conta de deus e do nada. A câmera se afasta e se afasta. O menino que imagina essa cena começa a inchar: a figura do ser e do não-ser o preenche mais e mais. Como um balão de hélio incham seus dedos, suas pernas, seu rosto. Logo é algo bojudo que exala ondas de perturbação no quarto. Logo sua pele esticada toca as paredes, os cabelos espalhados em uma superfície esticada roçam o armário. De sua boca, sai luz, de seus olhos sai luz, de seu nariz, sai luz. E então um pequeno furo começa a esvaziá-lo. O ar em que algo granuloso e lilás está suspenso. Ele esvazia, ele esvazia, e assim deus e o nada retornam ao mundo.
5.
A carne é inconstante nele. Desaparece, cede, cai aos pedaços. Com frequência é só esqueleto, e como esqueleto ele tem grande agilidade: escala qualquer prédio e corre em alta velocidade. Os seus componentes são ligados por alguma energia: pode lancá-los no espaço, o punho adiante do antebraço muitos metros, o braço adiante do tronco muitos metros, para depois trazê-los de volta como elásticos. No mundo lá fora os lobos de pele o acossam. A epiderme se destaca dos seus rostos e ataca como tentáculos. A língua emerge grossa e capaz de perfurar o concreto. Os dentes se acumulam na lateral da face, soltos na massa de carne. No chão da cidade há a mãe de todos eles, que solta seus braços de polvo e tritura por dentro quatro prédios. O homem precisa reagir. Explode então em milhares de fragmentos, pó de osso que se espalha com violência e fere cada poro dos lobos de pele. O sangue vaza no ar milimétrico. O pó agora como um anel ao largo de todos eles volta e os choca num só bolo de carne que cai na boca da mãe. O pó agora girando lento e afilando em uma seta que desce lenta e ferina e penetra no cérebro da mãe, que morre vomitando gosma. Na gosma e no ar brilham frações brancas. Elas se acumulam em um ponto e brilham, brilham, recompondo o homem – inclusive sua carne, em um foco luminoso. Nu, branco, novo, no intenso da luz.
6.
No centro da face, o genital feminino. Entre as pernas, a boca. O dono ou dona da boca se coloca com as pernas abertas sobre o rosto-vagina e chupa e lambe. Há, também, unicórnios: o falo surgindo ereto da testa.
***
Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Limbo – Original Videogame Soundtrack, de Martin Stig Andersen.