1.
É Oswald quem anuncia essa palavra de ordem, em “Falação”:
(…) Foi preciso desmanchar. A deformação através do impressionismo e do símbolo. O lirismo em folha. A apresentação dos materiais. (…)
Essa última proposta ecoa em mim desde a adolescência. Apresentar os materiais… a obra terminada entregue jamais à assunção, preservada como efeito do trabalho sobre tudo que não era ela (e que pode, outra vez, desmanchado, em folha, não sê-la). Não frequentamos, na literatura, a eternidade; gênios são operários, obras, primas ou não, são circunstâncias.
Quero seguir o poeta. Pôr, agora que jogamos o jogo, as cartas na mesa.
Ou, pelo menos, pôr cartas na mesa.
Pois bem!
2.
O termo *ker- compõe o vocabulário da língua protoindo-europeia, construção hipotética que, percorrendo para trás as genealogias das linguagens de hoje, determina o que seriam as fontes de várias palavras em diferentes idiomas. O asterisco indica o caráter teórico da palavra proposta. O traço, seu fator composicional. Para nós, *ker- é, principalmente, raiz de creare, o latim que nos legou criar (este é o horizonte e o impulso deste e outros livros escritos por mim com esse nome; falaremos mais disso abaixo). Mas este, de acordo com o American Heritage Dictionary of Indo-European Roots, é só um dos sentidos revoando em torno dessas três letras. *ker-1 é chifre, cabeça (chega a cérebro, a topo); *ker-2 indica ruídos altos ou pássaros (desdobra ressoar e limpar a garganta); *ker-3, nossa convidada de honra, significa crescer, brotar (está em sincero e em Ceres); *ker-4 é calor e fogo (vai à cerâmica e à cremação); *ker-5 é ferir (e está em cárie); *ker-6 é um tipo de cereja.
3.
Eu não sou um especialista em nada disso (nem é muito bom você confiar no que eu disse) – a questão é que *ker- me proporciona um efeito desejado: ela provém de um movimento de recuo, de um gesto em direção ao originário que busca o mínimo, coleta resíduos, toca no originário de esguelha. Em todas as muitas versões deste livro, uma inspiração análoga movia a escrita; primeiro, foi chamado de Original (e esse nome subsiste em uma seção); depois, de ḏḥwtj, uma tradução dos hieróglifos que designam Thoth (deus de escreventes e escritores que já estivera comigo em As Esferas do Dragão e que batizará outro projeto). *ker- supera esses títulos: impõe leituras mais plurais que “original” e é, à primeira vista, uma não-palavra como “ḏḥwtj”, legível até certo ponto, sugerindo pertencer a um código outro. O leitor, desde a capa, com os pés no Éden, à beira da infância e da explosão.
4.
*ker- advém de uma hermenêutica de si, que procede de acordo com os seguintes passos: a) a descoberta das formas de potência que nos habitam: esta incursão, este livro, foi dado pela existência em mim de uma vontade de mínimo, antes instintiva, agora consciente; b) o desvelamento das manifestações ética e estética das potências localizadas: na esfera do modo de vida, essa vontade se efetiva em coisas do tipo: só tenho um par de sapatos. Na esfera das táticas de inventar a si, aos outros e às obras, isso se efetivou nos procedimentos sugeridos por este *ker-, ocasionados, reclamados ou atraídos por ele; c) a construção de uma espécie de jornada em que as potências identificadas sejam desdobradas de um início a um fim. Assim, diáfano é nosso nada, original é nosso tudo, viemos grau a grau de um a outro. Nos apegamos a uma estrutura de sete passos – por amor pitagórico ao número? Talvez haja aí material para outro *ker-… – que será repetida em outras incursões. Com a jornada concluída, o feito estético implicará um efeito ético. Seremos inéditos.
5.
Que o protoindoeuropeu *ker- acarrete um livro, implica que o poderiam também:
*gno-
*kei-
*gene-
*leu-
*per-
*gras-
*kormo-
*spel-
*tag-
(…)
6.
Embora *ker-, como procedimento, nos inspire e organize, é falso que os conteúdos desse livro tenham sido criados a partir dele. Alguns, pode até ser. Outros tantos são compilados a partir de épocas e “estados de alma” muito distintos. Por exemplo, o poema “?”, referido em “encontro marcado (situações)” foi criado em 2010, para ser enviado, aleatoriamente, por e-mail, para desconhecidos; e “hermes, 2ª lei (trocadilhos)”, sem esse nome e não tão bem com esse formato, já estava por aqui em 2015. Eu não vislumbrava este projeto então; mas não é inegável que suas intenções já me ruminavam? As ressignificações nem sempre dão acabamento, porém. É o caso de “imitação de Lennon (procedurais)” que referenciava o Pequeno Princípe, contudo o fazia em 2021, quando esse personagem não havia ganho outro peso-Duanne. Hoje, minha mãe, lendo isso, fica triste. Desculpa, é outra coisa.
7.
Ademais, esse poema só faz concretizar uma vontade do músico. Em entrevista à revista Rolling Stone, John e Yoko Ono falam sobre a gênese de “God”, do Plastic Ono Band:Quando você soube que estaria trabalhando no sentido de “I don´t believe in Beatles (Não acredito nos Beatles)”?
JOHN: Não sei quando percebi que estava escrevendo todas essas coisas nas quais não acreditava. Então, eu poderia ter continuado, era como uma lista de cartões de Natal: onde termino? Churchill? Hoover? Eu achei que tinha de parar.
YOKO: Ele ia fazer aquele esquema de faça-você-mesmo.
JOHN: Sim, eu ia deixar um espaço em branco e preencher com suas próprias palavras: em quem quer que seja que você não acredite.
Eu convido (e convidarei noutro *ker-) vocês a responderem também seus “não acredito”.
8.
Não só nesse caso os poemas pressupõem uma referência que me ajudou a criá-los, porém não são assim tão fundamentais para a sua convivência com a mente dos outros. Veja só,
em cada palavra do poema “lista de palavras que aprendi com o meu avô” há um alçapão. Se o leitor fosse capaz de abri-los e descer aos sentidos subterrâneos, saberia coisas como: “mouco” vem de que meu avô podia às vezes me acusar de “fazer ouvidos moucos” (isto é, fingir que não se ouviu) — é (também) por isso que o primeiro capítulo de As Esferas do Dragão atribui à criatura fantástica “orelhas de touro moucas”; “cabala”, porque meu avô dizia que Jesus, antes de fazer sua turnê como messias, havia estudado, por sete anos, na Cabala (eu entendia na época que isso era um local, uma escola, porém é uma tradição mística judaica) — meu avô também dizia que Cristo não morreu na cruz, mas de velho, na cidade de Caximira, na Índia; “de propósito”, porque quando eu era bem pequeno, fiz alguma coisa errada e meu avô sugeriu que eu o havia feito de propósito. Eu não sabia o que isso significava, mas a expressão me soara bem e respondi que sim, fiz de propósito.
Agora você sabe isso, mas do poema não se pressentia, sem instrução, algo positivo?
9.
Esta é a seção 9 e derradeira deste epílogo, e o nove é bem atuante neste *ker- como Javé ou Wally: “diáfano” conta nove respirações, as listas de “ignóbil” nunca passam de nove; e as procedurais de “reagente” executam dezoito iterações. Mas isso não tem importância. Ou tem? Afinal, nove meses emolduram uma gravidez. E nove é o número do Dragão.