Primavera, verão, outono, inverno

PRIMAVERA. Quantidades enorme de fruta são espremidas. Corre o suco pelas canaletas dos templos de arquitetura similar à asteca. Derramam-se baldes de suco sobre a cabeça dos “sacrificados” ao deus. Com estiletes, pequenos cortes são feitos nesses que são purificados: seu sangue corre mínimo frente à grandeza da natureza. É principalmente o trabalho coletivo que é entregue à deidade: milhares de pés pisam uvas por centenas de hectares. A visão aérea é magnífica. Nas academias, os sábios começam a se despedaçar. Voam em um espaço sem gravidade seus olhos, suas orelhas seu nariz, sua boca, seus dentes, sua pele desenrolada como papiros. Eles sorriem. Voltarão a ser íntegros noutras estações.

VERÃO. É preciso se incapacitar à violência. Toda agressão e toda morte, e de forma cada vez mais intensa de acordo com a brutalidade, carrega a arma e o ofensor com uma energia negativa, que lhe acompanhará por toda vida. Não poderá erguer uma arma que seja ou mesmo a mão para outro ser por toda sua vida. Pela paz perpétua, portanto, na maioridade todos os homens e mulheres são formados em exército e levado ao ataque de um reino vizinho, que sofre um massacre. Os sobreviventes retornam abençoados, incapazes de machucar os seus. Ainda está tudo terminado, porém. Na segunda metade da estação, é a vez do reino vizinho atacar, deixando pouco mais que nada após sua passagem. Em ambos os lados, aqueles que sobram comemoram amplamente, com carne morta e vegetais apanhados pelos mais jovens.

OUTONO. Chove. Cilindros de luz multicoloridos caem a espaços do céu: amarelo, azul, roxo, verde, branco. As luzes atraem as criaturas que vivem nas nebulosas nuvens cinzentas. Os grandes dragões-arraia-azul se desprendem de como que grossas volutas de fumaça e perseguem as cores, sem poder capturá-las. Outros peixes do céu, como a piranha-de-boca-fixa, conseguem arrancar pedaços da luz (no caso delas, a luz permanece dentro da mandíbula, presa, ardente). Montados em libélulas de combate, os caçadores se movem em imenso exército para manter sob controle a movimentação dessa fauna rebelde. O principal cuidado é não olhar para uma piranha-de-boca-fixa após ela ter engolido um bocado de luz: como o canto das sereias, esse brilho mastigado atrai o combatente sem escape. Como se sabe que é o caso, assim que um soldado entra na garganta do peixe um dispositivo faz com que ele exploda, levando consigo o animal. O que faria uma piranha-de-boca-fixa alimentada? A luz recém-libertada retorna ao cilindro de luz, que lá permanecera, sem poder chegar e partir como os outros; os fragmentos quebrados que flutuavam na parte rompida pela mordida são mobilizados pelo raio que vai do peixe explodido até o cilindro; se reconstrói a estrutura e desaparece. O que ocorreria se os cilindros não pudessem retornar ao céu? Os soldados certamente teriam o que temer se tudo isso dependesse apenas deles. Mas o Mastiga-Folha vem, como em todo outono, trazendo à mão os burros que movem a sua carroça carregada de uma tonelada de folhas secas, as quais ele sempre tem de estar mastigando, se quiser permanecer de pé. Ele sabe como enfrentar as criaturas; com poucos gestos, as devolverá ao seu habitat. No outono ademais, ocorre o Festival do Tecido Sobre o Lago. Se as folhas caem, devemos ser tão leves quanto elas. Roupas de festa são lançadas para boiar, cobrindo o lago de cor. Uma única virgem nada de costas, nua, lenta, arrastando consigo as roupas conforme passa. Seu corpo delicado é iluminado pelo luar.

INVERNO. A imperatriz observa do palácio de cristal. Dentro dela, os orbes de luz que são seus sentimentos por vezes brilham e se movem, visivelmente. Passarozinhos de vidro infestam o local. Usados para construir tudo. Varridos nas ruas, mortos pelo excesso. Os robôs de segurança pisam nos montes de cadáveres. Os músicos os convocam e coordenam por meio de piano e violino. A Imperatriz, porém, consegue controlá-los por sua vontade. Ao longe, o monstro lilás se liberta de sua prisão. Reproduz-se: dois gêmeos explodem de suas costas. Morre na sequência. Os recém-nascidos o devoram e procedem a se multiplicar. Um exército vai se criando: eles atacarão o povo diáfano. Chove: manuscritos caem no céu e incineram logo após se destacaram das nuvens. Chove: como centenas de meteoritos pequeninos.

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Konoyo, de Tim Hecker (de “This Life” a “In Mother Earth Phase”).

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