Baseball, tubarões inflados e bruxa

BASEBALL. O homem que lança se demora por meses esculpindo uma face a partir da pedra. Se erra o desígnio, pede a seus companheiros de time que tragam mais material. Quando atinge a expressão que deseja, a ergue e a atira com o poder da sua intenção. O rebatedor deve entender a expressão, desvendar seu motivo, especular sobre a sua história. Sua capacidade de decifração dará a possibilidade do seu taco quebrar seu ímpeto e sua matéria, ou pelo contrário, se despedaçar sem contê-la.

TUBARÕES INFLADOS são lançados pelo exército inimigo. “Tubarões! Tubarões!”, os gritos na aldeia são inúmeros e se somam ao som do gás hélio escapando do plástico conforme os tubarões ascendem voo ao longe e descendem sobre as suas vítimas, mastigando carne e quebrando osso, apenas para perder todo conteúdo e morrer como brinquedos de criança nas calçadas cheias de sangue.

BRUXA. A caveira da bruxa (só sobram sobre o osso o chapéu, roupas amarfanhadas, restos de pele seca e cabelos brancos) sente um sinal e desperta. Um a um, dos dois vazios do crânio, saem diversos globos oculares. Logo, centenas deles deixam a casa e avançam pelas colinas até a aldeia. Logo, milhares invadem uma casa. O pai percebe e diz à filha: “Corra!”. Ela foge. Ele, com uma foice, tenta golpear e afastar os olhos. Mas eles sobem pelas suas pernas e braços aos montes, o derrubam, enfiam-se nos buracos do seu nariz (se empastelando no processo) e pela sua garganta. Ela sufoca, avermelha, morre. Não longe dali, a garota está cercada. Os olhos deixam só um caminho aberto. Ela sabe o que tem de fazer. Eles a escoltam até a casa da bruxa. Lá, eles fazem com que ela tome na mão uma espátula. Ela sabe o que tem de fazer. Enfia a ferramenta de metal na borda do olho e, parando várias vezes, arfando, tremendo, gritando, consegue arrancar o primeiro. O coloca no crânio. Ele se move de imediato, integrado, perspicaz. A moça passa a arrancar o próximo. Quando o faz, os milhares de globos o carregam até o segundo espaço no crânio. Assim que ambos estão lá, os cabelos se vivificam e mesmo a pele seca ganha vida. Os olhos passam a se pressionar contra os ossos, esmagando-se, tornando-se uma pasta sem cor, pouco a pouco se metamorfoseando em órgãos, em músculos, em epiderme. A bruxa, nua e renovada se deixa ficar deitada apenas um pouco. Levantada, ordena à menina cega que limpe o local. É o que ela faz, junto às suas companheiras de fado, que já se encaminhavam ao local — elas também sentiram o sinal. Anos mais tarde, será tempo da bruxa novamente ir a uma aldeia, seduzir um fazendeiro, fazer com lhe engravide somente para abandonar-lhe com a criança, dizendo que quando ela chegar aos 21 anos, ela voltará. (Uma vez, tentaram contê-la. O pai, com o bebê nos braços, fez um alarme e entraram outros três homens, antigos maridos da bruxa. Ela riu? “O que pensam que podem fazer?” Mergulhou um dedo em um panela de óleo quente e o atirou no primeiro. Sua carne ferveu inteira de pronto. No segundo, enfiou as unhas do indicador e do dedo médio no pomo-de-Adão; com um peteleco para cima, a cabeça se descolou do corpo. O terceiro, ela lhe enfiou dois dedos que mergulharam na sua testa como se fora líquida, e ele inchou, as veias explodindo. O pai ameaçou assassinar a criança ali mesmo, retirando qualquer vantagem dela. Era a segunda vez que isso acontecia à bruxa. Da primeira, o pai jogou a criança ao fogo, e nada pode fazer. Apodreceu por mais tempo do que seria seguro. Dessa vez, ele cortou a pequena garganta. O metal não possuía poderes sobre ela, e a bruxa só teve de regenerar o bebê. Deu um beijo no pai, o perdoou. Aterrorizado, ele se conformou.)

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Textos componentes da série Meditações. Criados desde o álbum Konoyo, de Tim Hecker (de “This Life” a “In Mother Earth Phase”).

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